
Na noite de S. António, a praça de toiros da Amareleja abriu a temporada 2010; a empresa GESTOIRO montou um cartel que em temporadas anteriores encheu praças da nossa geografia taurina, a denominada “Corrida da Mulher”, e trouxe um curro de toiros sério, com idade e com trapio, da mesma divisa que no ano anterior, tinha causado muitas baixas nos grupos de forcados intervenientes.
Porém os aficionados não responderam positivamente a este esforço dos empresários, a meteorologia até deu uma ajuda(noite de temperatura amena e sem vento), mas infelizmente registou-se uma fraca entrada de público. É muito fácil agora tentar adivinhar causas para o sucedido (muitas corridas neste sábado, meteorologia instável durante o dia, data não tradicional nesta praça), enfim, são os riscos que as Empresas correm na montagem dos espectáculos. Teremos que dar destaque, nesta crónica, ao elemento fundamental da Festa, o Toiro, e numa altura em que muito se fala e critica a pouca raça, bravura e apresentação dos toiros que já foram lidados esta temporada nas nossas praças, à arena da Amareleja saíram seis toiros “cinquenõs”, com trapio, sérios, com cara, hechuras, irrepreensível apresentação e muitos kilos, dignos de serem lidados nas principais praças do país e pelas primeiras figuras dos nossos cavaleiros. Toiros da ganadaria espanhola de José Luís Pereda Garcia, divisa azul e ouro, que deram bom jogo e que fizeram pairar a emoção, o suspense e o medo entre os toureiros e os presentes nas bancadas.
SÓNIA MATIAS abriu a função, lidando o toiro mais pesado da corrida, um flavo chorreado, que foi também o melhor da noite, revelando bravura e codicia. A cavaleira esteve diligente com a ferragem comprida, deixando duas tiras, com brega adequada.Com os ferros curtos e já mais confiada com o seu oponente, citou de largo, deu vantagem ao toiro que se arrancava para a montada e cravou bons ferros curtos a quarteio, sempre bem rematados, causando as primeiras explosões de alegria nos tendidos. Com o cavalo “Atrevido”, um bonito exemplar que chega facilmente ao público, Sónia cravou dois bons ferros em sorte de violino, deixando a arena debaixo de forte ovação.
Com o quarto da tarde, um toiro castanho albardado, a lide foi de êxito; de inicio sentiu alguma dificuldade com a ferragem comprida, o seu oponente era encastado e cedo desenrolou sentido, mas a cavaleira soube tornear esses obstáculos e com a ferragem curta a lide foi em crescendo. Pisou terrenos de compromisso, as reuniões foram ajustadas e vibrantes, demonstrando que está bem preparada para triunfar forte nesta época em que comemora 10 anos de alternativa. Utilizou de novo o “Atrevido”, para deixar dois ferros de palmo, também em sorte de violino, com que terminou a participação nesta corrida e sair da arena muito aplaudida e acarinhada pelos presentes.
A cavaleira ANA BATISTA, também esta temporada a cumprir 10 anos de alternativa (Coruche, 8 de Julho de 2000) e grande rival de Sónia Matias, veio também disposta a triunfar nesta corrida e podemos dizer que não defraudou os presentes. Lidou em segundo lugar um toiro negro listão, sério, com trapio, mas que apresentava defeito na visão. Com a ferragem comprida pouco há a assinalar, algumas passagens em falso e duas tiras regulares. Já com a ferragem curta Ana Batista teve alguns bons apontamentos, o toiro parou-se nos médios e desenrolou sentido e a cavaleira teve de arriscar em terrenos de compromisso para cravar quatro bons ferros, numa lide mais esforçada que conseguida.
A segunda actuação foi para mim a melhor da noite; coube-lhe em sorteio um exemplar castanho, também sério e com trapio, que cumpriu muito bem. Logo de inicio, com a ferragem comprida, a cavaleira aproveitou as arrancadas bruscas do toiro e os dois compridos causaram frisom. Trocou a montada e assistimos a uma lide séria, toureira e com muito oficio. O cavalo que utilizou esteve extraordinário, desde o cite, até pisar terrenos do toiro e depois a sair-se muito bem das reuniões e a dobrar-se bem no remate da sorte. Saiu também debaixo de forte ovação e visivelmente satisfeita.
Completava este cartel de mulheres cavaleiras, a jovem JOANA ANDRADE, que recentemente tomou a alternativa. Esteve correcta nas duas lides, notando-se menos argumentos do que as suas companheiras de cartel, para resolver os problemas que os seus oponentes lhe criaram, fruto também das poucas montadas que possui (apresentou dois cavalos apenas nas duas actuações).O seu primeiro oponente, um castanho albardado, o mais pequeno do curro, não a ajudou; era reservado, parou-se e depois tinha meias-investidas, mas a tentar colher a montada. Esteve bem com os ferros compridos, mostrando-se e citando de largo.Com os curtos teve de porfiar bastante e faltou-lhe romper para a lide ser triunfal. Encerrou a corrida, com outro toiro castanho albardado, sério e com pata. Deixou dois compridos, sofrendo forte toque na montada, aquando da cravagem do segundo. Depois foi resolvendo os problemas que o hastado lhe colocou, bregando bem e em sortes a quarteio cravou a ferragem da ordem. Foi também muito acarinhada pelos tendidos.
Como era esperado, a noite foi dura para os grupos de forcados; e realmente existem grupos que não estão devidamente preparados para as dificuldades que estes tipos de toiros colocam, compreendemos perfeitamente que as empresas tragam os grupos da região, numa tentativa de chamar mais gente à praça, mas depois as consequências e os danos físicos nos homens das jaquetas são graves e ontem isso ficou bem patente.
Pelo grupo de Moura, pegaram JOÃO CABRITA, que apenas consumou a pega à terceira tentativa e com ajuda carregada, e JOÂO CABEÇAS que só à quarta e a sesgo (também com ajuda carregada) pegou o seu oponente.
FÁBIO CAÇADOR do grupo de Safara protagonizou uma emocionante pega, ao fechar-se rijamente à córnea, com o toiro a desbaratar o grupo. ANTÓNIO CAMPANIÇO igualmente do grupo de Safara, pegou à segunda tentativa, depois de na primeira as ajudas não terem sido eficientes.
Finalmente o grupo da casa teve uma noite para recordar, pela negativa, e para ponderarem seriamente o futuro. Para a primeira intervenção saiu para a cara TIAGO GRILA, que se fechou à terceira tentativa (esteve fora da cara mas conseguiu recompor-se), nas anteriores o toiro estranhamente fugiu ao grupo, onde foi visível a má colocação dos restantes ajudas.Com o último toiro da corrida, aconteceu aquilo que não se devia ver num grupo de forcados. JOSÉ CAMPANIÇO foi para a cara, sendo violentamente derrotado, e tendo necessidade de recolher à enfermaria. Gerou-se logo desnorte entre os restantes elementos e novo cara foi tentar a pega, duma maneira realmente suicida, avançando em velocidade despropositada para o toiro, logo sem hipóteses de recuar e receber em condições, ficando por isso também muito maltratado e recolhendo tambem à enfermaria. Estava definitivamente instalado o pânico no grupo, e sem que alguém desse instruções aos forcados (onde estava o cabo) ainda disponíveis, que de repente eram já muito poucos, resolvendo-se então pegar o toiro de cernelha. Sairam os cabrestos, e sem coordenação nenhuma, um dos forcados tenta agarrar o toiro, em terrenos de tábuas, e sofre violento derrote que o projecta desamparado contra a trincheira, temendo-se o pior. Já com o público a protestar muito, o toiro acaba por recolher aos currais sem que a pega seja consumada.
Dirigiu a corrida com acerto, o antigo bandarilheiro Sr. Francisco Farinha (natural
da vizinha freguesia da Granja).
A Banda Filarmónica Amarelejense abrilhantou o espectáculo, e a embolação e ferragem esteve a cargo do sr. José Paulo.
Como nota final, apenas registamos as constantes alterações na iluminação da praça,
com focos a apagarem-se várias vezes e a criarem muitas sombras no piso e trincheira da praça, prejudicando as lides.
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